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Conheça a história do macarrão

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fevereiro 4, 2014

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A Itália não é mãe natural do macarrão, mas o adotou de tal forma que mudou sua história - e influenciou a alimentação em todo o mundo. É o que conta Encyclopedia of Pasta

Leila Zampieri

Não é de hoje que finas tiras de um simples preparado à base de água e farinha enfeitam, geralmente cobertas com molho de tomate, as mesas de pessoas famintas (ou somente gulosas). Ferramentas usadas para a manufatura de massa datadas de antes do século 7 a.C. foram encontradas em tumbas etruscas. Poetas romanos, como Horácio (65-27 a.C.), escreveram na Antiguidade sobre um alimento chamado laganum, o provável ancestral da lasanha. Ele, aliás, não foi nem de longe o único personagem histórico a se render aos encantos da pasta.

Há registros de que o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) era fã de espaguete. O multitalentoso Leonardo da Vinci (1452-1519), que dizia preferir ser mais lembrado como cozinheiro do que como pintor ou engenheiro, gostava tanto de macarrão que chegou a dedicar horas de seu tempo à industrialização do alimento. O Código A tlântico, um compêndio de seus projetos, registra o desenho de uma gigantesca máquina de preparar lasanha. A geringonça não deu certo: a mistura, que deveria ser submetida à alta pressão, quebrava antes mesmo de ser cortada. Frustrado, não sossegou enquanto não conseguiu calcular a exata tensão que o talharim e o espaguete suportavam antes de se romper.

home3Como se vê, a pasta tem história. E muita. Vários cientistas, baseados em achados arqueológicos, atribuem sua invenção aos chineses, há 4 mil anos. Outros dizem que ela surgiu na Palestina da Antiguidade. Há ainda os que afirmam que os gregos foram os primeiros a consumi-la. Se a origem causa discórdia, uma coisa é certa: foi na península Itálica que a massa se transformou naquilo que hoje conhecemos. Lá, ganhou centenas de formatos, recheios, molhos e fama. Por isso, só podia ter saído da cozinha italiana um livro como Encyclopedia of Pasta (Enciclopédia da Massa, inédito em português), da pesquisadora Or etta Zanini de Vita.

Durante dez anos, ela entrevistou centenas de conterrâneos para conhecer antigos métodos de produção do alimento e suas diferenças regionais. E escarafunchou arquivos país afora para encontrar registros sobre a fabricação, o comércio e o consumo de massa. O resultado são os 130 tipos que ela lista em seu livro, um verdadeiro tratado sobre a comida. Oretta tem sido comparada à Julia Child, a americana que ajudou a desmistificar a cozinha francesa ao escrever um best-seller sobre o tema (e que teve sua vida retratada no filme Julie & Julia, de 2009, com Meryl Streep como uma das protagonistas). Mas a italiana esclarece: “Este não é um livro de receitas”. E tem razão. Sua obra tem muito de história social. Os verbetes da enciclopédia trazem o nome da massa, os ingredientes, como ela é preparada, outros apelidos pelos quais é conhecida (o espaguete, por exemplo, era chamado vermicelli, algo como “vermezinhos”, até a virada do século 2 0. Hoje há os dois tipos, com espessuras variadas), a forma como é tradicionalmente servida, em que regiões da Itália ela é encontrada e curiosidades sobre sua história.

A pesquisadora traça ainda paralelos entre a trajetória de seu país e a de sua comida preferida. Alguns tipos de massa criados no século 19 foram batizados com os nomes de proezas militares da Itália na África. É o caso do grupo de um macarrãozinho simpático que tem diversos tamanhos e geralmente é servido cozido em um caldo, cujos nomes são tripolini, bengazini e abissini. As referências são, respectivamente, às cidades de Trípoli e Bengazi, na Líbia, e à região da Abissínia (Etiópia), onde os italianos empreenderam algumas campanhas militares. Outra massa desse grupo é a assabesi, uma alusão à compra do porto de Assab, em 1869, no mar Vermelho, por uma companhi a de navegação genovesa.

Mitos

mitos-macarrão-makkarrãoEncyclopedia of Pasta também se encarrega de desvendar alguns mitos. Talvez o maior deles seja o de que o explorador Marco Polo teria trazido o macarrão para a Itália. Segundo Oretta, uma massa seca feita com trigo duro já era consumida na península por volta do ano 800. Ela foi levada de lá para o resto do mundo por navios de conquistadores muçulmanos da Sicília. No século 12, as repúblicas de Gênova e Pisa comercializavam a pasta seca para várias regiões próximas e também para outros países da Europa. “Existem documentos para provar isso, se há alguém que ainda acredite – e parece mesmo que há – que Mar co Polo levou os noodles para a Itália em 1296 em seu retorno a Veneza da China”, diz a autora no livro. “Na verdade, naquela época as pessoas de toda a Itália já comiam pasta havia pelo menos um século.

Marco Polo relata um encontro com o noodle chinês e usa a palavra ‘pasta’ para descrevê-lo, claramente mostrando familiaridade tanto com o termo quanto com o conceito.”

Produzir pasta, descreve Oretta, foi durante vários séculos um processo extremamente trabalhoso, que dependia de mão de obra especializada. A massa era feita na martora, uma espécie de tina em que o operário entrava e, como fazem os produtores de vinho ao esmagar as uvas, amassava-a. Misturar sêmola à água levava entre duas e três horas. Depois a massa era transferida para uma máquina com dois rolos, da qual saía mais fina para ganhar seu formato a mão. A secagem era de morada e ainda mais trabalhosa. Massas frescas são sensíveis ao clima – por isso, os antigos produtores eram considerados praticamente mágicos. “Eles rastreavam o céu, questionavam as estrelas e examinavam as fases da Lua e os ventos para estabelecer a posição de secagem da pasta”, escreve Oretta. Tudo porque nos primeiros dias era necessário ar úmido, para depois a massa ser submetida ao ar seco.

Esse método começou a cair em desuso no século 16, com o surgimento do engenho, que, como os nossos engenhos de açúcar, tornou o trabalho mais rápido e fácil, além de possibilitar o aumento da produção. A massa passou a ser feita com água quente, o que facilitava a mistura. Moinhos eram movidos com água dos rios ou com a força de burros, cavalos ou mesmo humana. Mas foi só no fim do século 17 que esse processo de produção multiplicou-se pelo país e o preço da pasta começou a cair – assim, a população mais pobre pôde, enfim, consumi-la em datas que nã o fossem exclusivamente a Páscoa, o Natal e o Carnaval.

produção-macarrão-makkarrãoA industrialização, porém, seguiu caminhos tortuosos. No começo do século 20, ainda faltavam energia e canais de comunicação em diversas províncias. Até hoje, a antiga forma de fazer macarrão sobrevive em pequenos negócios familiares. Cada região, província, cidade e até família, claro, fazia a pasta no formato que quisesse. E esses diversos modelos levaram muito tempo até se espalhar pela Itália. Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quatro quintos da população do campo ainda tinham sua dieta baseada em vegetais. A massa, por ser ainda cara (apesar do barateamento iniciado cerca de 300 anos antes), era reservada a dias especiais – e geralmente servida diluída no meio de uma sopa de legumes.

Hoje, o consumo médio de pasta no país é de 25 a 28 kg por ano por pessoa. Para ter uma ideia do que significa isso, nada como examinar a própria mesa: cada brasileiro, no ano passado, comeu apenas 6,4 kg, apesar de sermos o terceiro maior produtor mundial de macarrão.

O revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi havia proferido no século 19: “Será o macarrão, eu juro para vocês, que unificará a Itália”. Se o alimento não teve a capacidade de fazer isso por sua nação, ele, pelo menos, conseguiu unificar o paladar do mundo todo. Pois não há sujeito bom da cabeça que resista a um saboroso prato de massa.

Variadas e deliciosas


Os mais curiosos tipos de massa

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Ingredientes: farinha de trigo ou farinha de trigo duro e água. Às vezes, misturam-se batatas e ovos.

Como é servido: com molhos variados, em sopas de legumes e ainda in brodo (no caldo).

Onde é encontrado: por toda a Itália.

Curiosidades: é o ancestral de todo tipo de pasta na Grande Bota. O termo – gnocco, em italiano – é usado para inúmeras formas, desde a redonda, comum no Brasil, até uma mais alongada, parecida com o espaguete. Costumava ser cozido ou frito, coisa que ainda acontece em certas regiões italianas. Sabe-se que é consumido desde a Antiguidade. A princípio, era feito apenas com farinha e água. Em regiões pobres, sua massa era constituída por sobras de alimentos ou de pão. A batata passou a fazer parte dos ingredientes só no século 19.

Capeletti

Ingre dientes: farinha de trigo e ovos. Para o recheio, uma mistura de carne e temperos, de acordo com o costume local, ou de ricota temperada. Espinafre ou outra verdura podem ser adicionados.

Como é servido: com caldo de frango ou carne.

Onde é encontrado: no norte da Itália (Emilia-Romagna), mas também em Lazio, Marche e Úmbria.

Curiosidades: o formato é o de um chapéu medieval, do qual vem seu nome. Na Idade Média, uma grande variedade de massa recheada deliciava o paladar dos mais afortunados. O capeletti sem carne, como era feito em Romagna, ajudava a preencher o vácuo que a Quaresma e outros feriados deixavam no es tômago dos menos privilegiados.

Farfalle

Ingredientes: farinha de trigo, ovos e água.

Como é servido: os menores são geralmente cozidos em caldo. Os maiores, servidos com molhos típicos da região em que são consumidos.

Onde é encontrado: por toda a Itália.

Curiosidades: o nome significa “borboleta s”, por causa de seu formato. Algumas de suas variações ganharam nomes também referentes ao mundo animal, como lumachine (“minhoquinhas”, em italiano), coralli ou corallini (“coral”) e fischiotti (uma espécie de pato).

Gloria patri

Ingredientes: farinha, ovos e água.

Como é servida: geralmente em sopas, com condimentos tradicionais de cada região.

Onde é encontrada: Marche e Úmbria.

Curiosidades: o nome significa “Glória ao Pai”. Donas de casa, na cozinha, costumavam rezar orações como o pai-nosso ou ave-maria para medir o tempo de cozimento da pasta. Gloria patri era reservada apenas para os dias de festividades porque exigia um processo de preparo longo e trabalhoso. Os pauzinhos usados para fazê-la eram de um tipo muito específico de madeira, como a faia.

Mafalda

Ingredientes: farinha de trigo duro e água.

Como é servida: como o espaguete, com molhos tradicionais de acordo com a região.

Onde é encontrada: por toda a Itália.
Curiosidades: o nome é uma homenagem à princesa Mafalda, nascida em 1902. No começo do século 20, um pequeno grupo de massas foi dedicado à casa real de Savoia, os novos monarcas italianos. Têm o mesmo formato que a mafalda as massas chamadas regine, “rainhas”, e seus diminutivos, como reginelle e reginette, além de signorine, “senhorita”.

Encyclopedia of Pasta

 
 

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